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2.3.1
Dramatização ou concretização
Nos sonhos não existem pensamentos abstratos, mas somente imagens
concretas. Na elaboração do sonho
os pensamentos abstratos tornam-se imagens concretas, sem preocupação com a lógica
da tradução. Tallaferro explica
isto assim: um pensamento abstrato,
como a consideração da própria vida, pode manifestar-se no sonho através de
uma imagem concreta, como por exemplo, do sonhante folheando a revista Life.
Este mesmo princípio é retratado pelo autor em outros exemplos:
um episódio da infância poderá se concretizar nas roupas dos
personagens; uma senhora que deseja fervorosamente não ter que abandonar sua
casa, poderá sonhar que estava plantando sementes que rapidamente produziam raízes
e convertiam-se em árvores.
2.3.2
Condensação
Na vasta maioria dos casos o sonho manifesto é uma versão altamente
condensada dos pensamentos, sensações e desejos que compõem o conteúdo
latente do sonho. Várias pessoas
ou elementos do conteúdo latente costumam aparecer no conteúdo manifesto como
uma única pessoa, mas com as características condensadas de cada uma delas. Tallaferro dá um exemplo de como isso acontece:
um homem sonha que está dirigindo um caminhão e que, ao dobrar
rapidamente uma esquina, atropela e mata um homem de meia-idade, ruivo, que está
de calça listrada e paletó verde. Interpretando
o sonho, verifica-se que o sonhante dera curso na vivência onírica ao seu
desejo, logicamente reprimido, de tirar do caminho um indivíduo que tinha calças
listradas, um outro homem que usava sempre um paletó verde e um parente que o
fizera sofrer durante a infância e era ruivo.
2.3.3
Desdobramento
É o contrário da condensação: uma
pessoa ou objeto do conteúdo latente corresponde a duas ou mais do conteúdo
manifesto. Neste caso, cada um dos
elementos pode indicar um aspecto ou qualidade da pessoa/objeto relacionado.
Tallaferro apresenta o seguinte exemplo para explicar este processo:
a análise dos sonhos de um indivíduo que em seus sonhos sempre via suas
mãos com oito dedos cada uma revelou a existência de sua angústia de castração,
que ele tentava superar multiplicando seus dedos, símbolos do pênis.
2.3.4
Deslocamento
É tido como o processo mais importante da deformação do sonho por
Tallaferroe
consiste na substituição de uma imagem do conteúdo latente por uma outra no
conteúdo manifesto. Quando o
deslocamento não é de imagem, mas de determinada emoção, chama-se isto de
projeção. Assim, se um personagem
do conteúdo latente tem desejos agressivos contra outro, no conteúdo manifesto
é este quem os tem.
Altman apresenta o seguinte sonho para exemplificar este conceito:
Eu estava de pé num lugar muito definido de uma casa muito bem definida.
Era a casa em que vivíamos quando o meu irmão nasceu.
Estava no que se tinha sido o meu lugar de recreio.
Vi uma bola parada diante de mim e dei-lhe um violento pontapé.
A pessoa que sonhou falara no dia anterior com um homem que se parecia
com o irmão, fazendo com que
chegasse em casa, inexplicavelmente, muito irritada.
Sem qualquer provocação do marido, criticou-o asperamente e, depois, se
retirou para o seu quarto, desfeita em lágrimas. O marido, em casa, e a bola, no sonho, sofreram o que era
destinado ao irmão da mulher.
Laplanch e Pontalis informam que nas diversas formações em que é
descoberto pelo analista, o deslocamento tem uma função defensiva evidente.
Citam o exemplo de uma fobia, onde o deslocamento sobre um objeto fóbico
permite objetivar, localizar, circunscrever a angústia.
Com relação ao sonho realçam que o deslocamento está ligado à
censura: “A censura utiliza o mecanismo de deslocamento
privilegiando as representações indiferentes, atuais ou suscetíveis de se
integrarem em contextos associativos muito afastados do conflito defensivo.”
2.3.5
Representação pelo oposto
Tallaferro explica que isto ocorre quando um personagem, ou o próprio
sonhante, que no conteúdo latente do sonho tem uma intensa emoção, aparece no
conteúdo manifesto como totalmente calmo.
Afirma que é o que também ocorre quando no conteúdo manifesto o indivíduo
está partindo, ao passo que, na realidade, o que ele pretende fazer, segundo o
seu desejo do conteúdo latente, é voltar.
Neste processo, ainda é possível que um intenso desejo de amor no conteúdo
latente se expresse no conteúdo manifesto por ódio ou rejeição.
2.3.6
Representação pelo nímio
Quando uma representação do conteúdo latente se faz no sonho manifesto
mediante uma imagem de seus detalhes mais insignificantes.
Um exemplo: o desejo
inconsciente de despir uma mulher pode aparecer no sonho manifesto representado
pela ação inocente de lhe tirar um brinco.
Tallaferro ainda expõe outra forma desta representação, que consiste
em sublinhar no conteúdo manifesto algo que nos pensamentos latentes tem valor
secundário e, em contrapartida, colocar o principal em segundo lugar.
2.3.7
Representação simbólica
Esta representação simbólica pode também ser entendida como uma forma
especial de deslocamento. Nota-se um símbolo quando em diferentes sonhos
observa-se que determinado elemento concreto do conteúdo manifesto está
relacionado, com certa constância, com um elemento reprimido do conteúdo
latente. Desta forma, uma
representação simbólica consiste num objeto ou um ato que não aparece como
tal no conteúdo manifesto, mas representado mediante um símbolo. Especificamente sobre os símbolos nos sonhos trataremos no próximo capítulo
de nossa pesquisa, quando enfocarmos a interpretação dos sonhos.

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